sábado, 16 de novembro de 2013

Notas sobre aliados, inimigos, oportunidade e oportunismos

Postado sex, 26/10/2012 - 19:00

Estamos em tempos de vivenciar o maior julgamento da história do nosso País. Na pauta, o nosso incêndio do Reichstag. Popularizado graças a uma persistente ação midiática, que resulta em uma espetacularização comovente


Notícias a cada minuto, comentaristas que se tornam especialistas em todos os possíveis ramos do direito, sempre preocupados e atentos com o futuro da Justiça brasileira. Contagiante, comovente, preocupante. Um show.

O tema da corrupção, coadjuvante, vez que sombreado pelo PT, este alçado a tema central. É um julgamento da sua prática e, como dizem, o fim da pureza – provado, atestado e sentenciado – do até então principal representante posicionado do lado acusador dos casos e mais casos de corrupção. Um sonho, agora concretizado, deixando a elite brasileira contente, satisfeita, celebrativa e bradando: o PT ético acabou. Mas o curioso não é a espetacularização de um julgamento, tampouco os ataques da elite e seus papagaios de plantão, sempre bem atentos para agradar os patrões. O curioso, e igualmente preocupante, são o regozijo e a adesão de setores do campo popular.
O DESAFIO DA UNIDADE, ALIANÇAS, IDENTIFICAÇÃO DE ADVERSÁRIOS E INIMIGO

A diversidade de correntes da esquerda brasileira atesta, por si só, a existência de diferenças importantes, gerando um quadro de fragmentação das forças políticas. Tais diferenças resultam em disputas no interior dessa esquerda, que não raras vezes colocam tais forças em polos opostos - especialmente visíveis nas eleições - assim como nos movimentos sindical, e no campo popular, dentre outros. Por vezes essas disputas acontecem com tal intensidade, graus de tensões e conflitos, que mais parecem lutas entre inimigos históricos e inconciliáveis.

Porém, tais disputas, ainda que duras, ocorrem no interior de um campo maior identificado por bandeiras históricas assim como por identificarem inimigos em comum, especialmente os estratégicos, seguidos dos táticos, daí para os de menor importância, etc. Ou seja, a disputa dentro do campo popular faz dessas forças adversárias, o que guarda distância abissal das disputas entre inimigos, estes inconciliáveis.

Se isso é uma afirmação correta, logo se procurará meios para identificar as forças e enquadrá-las, seja como adversárias, seja como inimigas, e a partir daí identificar os polos mais distantes dos mais próximos. Esse passo em nada se assemelha à simples – e errada - forma de ler essa conjuntura, que parte por identificar as forças a partir da visão de que os inimigos dos meus inimigos são meus amigos, os amigos dos meus inimigos são também meus inimigos e por ai vai. Esse simplismo induz a erros graves e trágicos.

No interior de uma esquerda diversa, o principal desafio colocado para as forças revolucionárias é a construção da unidade. Essa unidade não se coloca apenas como mais um dos desafios, mas como um dos mais centrais. É possível afirmar sem riscos, que a unidade é uma das condições da vitória, a léguas de distância de uma simples opção. Ou os setores populares alcançam unificar suas forças, ou apenas entrarão para a história pela sua existência, mas não por se tornarem vitoriosos.

Sendo isso quase uma máxima da luta popular, é verdade também que não se faz unidade entre iguais, ela pressupõe diferenças, e mais do que isso, como um elemento estratégico, é uma confissão de incapacidade: a vitória de um processo de luta é tão central, que admitimos não termos possibilidade de alcançá-la contando só com nossas forças. Portanto, é uma combinação de leitura estratégica com declaração de fragilidade para levar ao seu termo uma revolução. As duas exigem, no mínimo, uma postura construtora das forças, distante da arrogância incompatível com os pontos acima.

De igual importância temos o tema das alianças. Aqui, a importância se vê acrescida, como resultado de diferenças sociais, das peculiaridades de nossa formação econômica e social em relação aos tradicionais cenários narrados pelo Marxismo. Novamente nos vemos ante um tema delicado, caro à luta revolucionária, e que compreende um esforço de atrair para nosso campo forças intermediárias, visando sobretudo a isolar o inimigo principal, e acrescer nossas hostes, ainda que tais alianças sejam frágeis e de curta duração. O ponto delicado nesse tema é determinar o limite para as alianças. Como fazê-lo? Não há quem possa apresentar uma resposta simples. Ao que nos parece, o limite é definido pelas contradições e antagonismos, de maior ou menor intensidade, com nossos inimigos principais, estratégicos. Logo perguntaríamos, persistentemente: mas qual o limite? Se amplo demais, perde-se a coloração programática, se estreito, resultaremos sem as forças necessárias para vencer. Por isso, o critério mais correto será o de garantir as forças fundamentais, ainda que com elas os setores populares guardemos algum grau de contradição, mas tendo em vista que elas os têm também com nosso inimigo principal, sendo que tais forças tendem a vivenciar mais intensamente as contradições com nossos inimigos principais, com os quais chegam muitas vezes a possuir antagonismos.

Por isso, o preço e a dimensão das forças e da aliança é estabelecido pelo quanto ela – aliança – nos permite avançar e simultaneamente enfraquecer nosso inimigo principal. Uma máxima, novamente evocando essa ideia, é a de construir a unidade e uma política de alianças capaz de neutralizar setores vacilantes (até o limite possível), dividir os inimigos, isolar o inimigo estratégico e fragilizar-lhe a ação.

Por isso, em política, a clara identificação do inimigo principal, assim como os secundários e de menor importância, o campo possível de aliados – desde os estratégicos aos mais táticos e pontuais, é outra importante condição para avançarmos na luta popular e revolucionária.

Disso também se extrai outra ideia: aqueles que não identificam bem os inimigos e os possíveis aliados, e confundem inimigos com adversários, promovem o que não raras vezes os povos já presenciaram: a unificação dos inimigos contra nós. E com isso produzem uma política anti- revolucionária!

Portanto, não identificar bem os campos, especialmente onde se situam aqueles com quem devemos lutar, quem devemos atrair, que setores devemos buscar neutralizar – até o limite – e quem devemos isolar, fragmentar e até mesmo destruir é uma necessidade revolucionária da maior grandeza. Não há programa revolucionário que suporte inimigos unidos, forças revolucionárias fragmentadas e em disputa.



OPORTUNIDADES E OPORTUNISMO

Duas palavrinhas com raiz etimológica comum, mas que guardam conteúdos absolutamente distantes. Por vezes, a partir de temas, de pautas, fissuras na conjuntura, surgem oportunidades para entrarmos na conjuntura com nossas propostas, leitura das perspectivas, palavras de ordens que, se corretas, podem gerar referencia nas massas, resultando em melhores condições para aplicar uma determinada linha política. As forças populares também procuram com isso convencer umas às outras da correção de suas leituras da realidade, desafios, tarefas do momento, próximos passos, palavras de ordens que melhor sintetizam esse conjunto de formulações.

Ao estudar a história, especificamente a história da luta revolucionária brasileira, podemos extrair lições importantes sobre isso. Diversas organizações, criadas genuinamente por quadros preparados, comprometidos, dispostos, não encontraram condições – ou oportunidades – para se apresentarem para a sociedade e disputar corações e mentes, buscando arrastar e impulsionar milhões em lutas que anteviram, se prepararam e corretamente influenciaram. Algumas nasceram e findaram, mediadas por décadas, sem terem conseguido alcançar esse momento.

A busca incessante de disputar os rumos da luta popular não deve desprezar princípios, valores e fundamentos construídos historicamente. A começar por diferenciar a luta por a oportunidade para incidir na luta popular, do oportunismo.

A concepção mais dura de uma esquerda que, diante de situações delicadas, ultrapassou a fronteira de avançar e aproveitar oportunidades da luta, alcançando uma postura oportunista foi a tragédia da primeira guerra mundial. Conhecida como a falência da II Internacional. Não se trata de um artigo de história, mas apenas para esclarecer a construção desse conceito para a esquerda revolucionária.

A principal força revolucionária do mundo de então, o Partido Socialdemocrata Alemão (SPD), forjado por uma constelação de figuras históricas, dentre elas Engels, Bernstein, Kautsky, Rosa Luxemburg, Karl Liebnieck, vivia um período de crescimento exponencial, seja na sua capacidade de luta, com importantes conquistas no campo econômico, seja na política, com a ampliação da presença no Parlamento Alemão (Reichstag).

Esse processo se deparou com uma situação muito especial: o império Alemão se construía como uma potencia militar em vias de uma guerra de grandes proporções. Sem vacilar, o SPD, assim como o conjunto de partidos integrantes da II Internacional (conhecida como Internacional Socialista, posteriormente I.Socialdemocrata), tinham clara posição: nenhum apoio ao esforço de guerra, que, se deflagrada, seria convertida – por essas forças com grande capacidade de influencia nas massas – em uma guerra do povo e trabalhadores contra as burguesias nacionais.

O esforço de guerra foi acompanhado de uma grande disputa política e ideológica no seio das sociedades, e no contexto alemão a burguesia imperialista buscava criar uma forte comoção para apoiar o esforço e a guerra. Com limites para conduzir o esforço de guerra, dependente de um orçamento extra de grandes proporções, colocou o debate para o Parlamento, que deveria votar os tais créditos de guerra, sem os quais não teriam sido criadas as condições para a guerra e, consequentemente, os rumos poderiam ter sido outros...

Ante a uma forte pressão dos grandes empresários interessados na disputa, motivada por interesses econômicos em conflito, com forte pressão dos meios de comunicação da época, foi avançando a construção de uma pressão também popular, ou como se costumava dizer, a pressão da opinião pública. Não era consenso, mas essa proposta foi ganhando força também com a vacilação de setores dentro do PSD, com a ameaça da barbárie eslava, representada pelo czarismo, contra a chamada civilização alemã, procurando dar centralidade na defesa da “União Nacional” em detrimento das lutas e disputas entre proletários e burgueses.

O ponto culminante foi com a aproximação da votação dos créditos de guerra, em julho e agosto de 1914. Pressionados pelo clamor pela defesa da grande Alemanha, aderente a opinião pública, e antevendo eleições, sendo estas um importante momento para o crescimento do SPD. Com a chamada opinião pública convencida da necessidade de investimentos militares agressivos, o dilema do SPD se colocou: ser fiel aos princípios socialdemocratas, ao aprovado na II Internacional, e votar contra os créditos, tendo como consequência o veto dos créditos e consequentemente reduzir drasticamente sua popularidade e milhões de votos?

A outra opção seria caminhar “junto” com o povo, seguir a opinião pública, votar pela aprovação dos créditos de guerra, fortalecer o partido com as massas, especialmente as camadas médias, potencialmente amplificando sua eleitoral? Todos sabem o desfecho desse dilema, parteiro daquela que por décadas ficou conhecida como a maior traição da esquerda, sob a alcunha de nacional-chauvinismo.

A autoconstrução deve ser equilibrada com a coerência. A busca por autoconstruir-se, em detrimento de tudo e todos, é o mais puro oportunismo.



PONTOS SOBRE O TEMA DO MENSALÃO

Na imensa diversidade da esquerda brasileira, muitos setores são contrários às opções e caminhos (ou descaminhos) do PT, tanto que se desligaram e seguiram caminhos próprios, uns há mais tempo que outros. Porém, ao converter o PT em seus inimigos principais, tais setores confundem o povo, aliam-se com os verdadeiros inimigos e cometem erros tão ou mais graves que os que motivaram suas críticas e saída do PT.

Longe de desprezar a necessária demarcação das diferenças, que as correntes fazem com maior ou menor intensidade, ainda que por vezes desprezando as diversas coincidências e pontos em comum, temos que, ao confundir os momentos da luta, ou seja, quando é oportuno apresentar diferenças, e quando é necessário defender até mesmo adversários com fortes contradições conosco, não será possível avançar na unidade e convívio com a diferença. O ataque fundado no tema do mensalão, léguas distante de ser desferido apenas ao PT, resvala em todo o conjunto da esquerda brasileira. Tentar se somar ao chamado clamor da opinião pública, para, “oportunamente” lançar “verdades”, palavras de ordem e apresentar diferenças, longe de aproveitar oportunidades, conforma radical oportunismo. Oportunismo clássico, vil, descarado e profundamente antipopular.

E para aqueles que, se achando na estatura para substituir quem hoje hegemoniza o campo popular(queiram, concordem, ou não) – contraria a história dos momentos de crise da esquerda, como o atual, e sobretudo contraria os ensinamentos de Freud, ao supor, por conta e risco, que as chamadas massas apegadas ao PT, especialmente a figura simbólica de Lula, se darão por vencidas com o naufrágio do PT e se lançarão a procurar o novo, e claro, tais forças, leia-se, oportunistas, estarão lá para recebê-las. Lembremos que o fim de um período como esse, que já chamamos de ciclo PT, não será suplantado por algo em sequência. Entre esses tempos, será vivenciada uma profunda crise, ou como se queira, o luto pela morte – prematura ou tardia - do PT.

Por isso, o esforço de unidade, da construção de alianças que assegurem isolar e enfraquecer esses grandes inimigos do povo, estimulando lutas, organizando o povo e realizando a disputa de corações e mentes para mudar o nosso país. E, ainda que diversos, respeitando as diferenças, as demonstramos oportunamente, mas diante de ataques do inimigo, não podemos vacilar: unidade, solidariedade e luta!




Aton Fon Filho (affeng@gmail.com)

Ronaldo T Pagotto (ronaldopagotto@yahoo.com.br)

Ambos são da Direção Nacional da Consulta Popular.
Fonte: 

Aton Fon Filho e Ronaldo Pagotto - SP, 10 de outubro de 2012

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